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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ENTERRAR OS MORTOS E CUIDAR DOS VIVOS

Antes de sair em férias na última semana de janeiro, estávamos no auge da cobertura do catastrófico terremoto no Haiti. Isso porque, no fim de ano, já tínhamos mostrado os estragos causados pelas chuvas nos estados do Rio, São Paulo, Paraná. Tinha ficado muito comovida com as histórias que escutei e vi sobre o desabamento em Angra do Reis. Mas, no Haiti, em virtude da proporção do estrago, foi mais difícil. Procurando pessoas pela internet para tentar contato, participando da edição das matérias, sabendo das dificuldades da nossa equipe que estava fazendo a cobertura em Porto Príncipe e escutando os relatos de tudo que eles viam lá, tive um início de férias um pouco down. Até viajei doente! Mas estou relatando tudo isso porque na época comecei a rascunhar um post sobre o Haiti. Minha idéia era escrever sobre o que aprendi nessa cobertura: o sentido de caridade e solidariedade. Queria mostrar que essas duas palavras não estão ligadas à esmola, dinheiro. É muito mais que isso. Só que hoje, retomando as minhas leituras dos blogs que sigo, deparei-me com um texto do O Carderno de Saramago, com o título, Quantos Haitis? Achei perfeito e muito mais oportuno. José Saramago vai no "X, Y e Z" da questão.
Clique aqui e leia o post no blog O Carderno de Saramago.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

UM CAPÍTULO PARA O EVANGELHO

Para quem gosta de Saramago, hoje eu descobri o blog do escritor português, O Caderno de Saramago. Para minha surpresa deparei-me com um capítulo extra do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O melhor de tudo, a narração da história é de Maria Madalena. Para quem é apaixonado por Saramago ou tem curiosidade em conhecer um pouco da sua obra aqui está. Leia o texto aqui no Vivendo e Aprendendo, e depois dê uma passadinha lá no blog do Saramago, vale a pena.


por José Saramago
"De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer."

Para ler este texto no blog do autor, clique aqui.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

JANELAS DA ALMA


Por que será que a sua boca não me diz o que os olhos já me dizem? Segundo Mário Quintana: "Nunca diga te amo se não te interessa. " Será que eu não interesso? Mas os olhos dele dizem que me amam! A língua, as mãos, a pele também. Todo o corpo dele diz que sim. Esse é o som que eu escuto. Cada pedacinho dele me chama, pede meu corpo, minha alma. Sinto que ele é todo meu, e eu sou toda dele. O que representam essas sete letras, ou uma frase, se é tudo tão intenso e explícito? Mas por que os olhos dele me dizem o que a boca se nega a pronunciar? Queria muito ouvir "Eu te amo". 

Enquanto não ouço, vou me contentando com Saramago: "Os olhos são a janela da alma. Uma espécie de espelho voltado para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca.

"Este é mais um texto extraído do meu diário, que agora é público. Eu o escrevi em fevereiro de 2008. Meu namoro ainda estava começando. Acho que não tínhamos nem quatro meses juntos. Mas eu já tinha descoberto que o amava e sentia que ele a mim. Não tinha coragem de dizer e esperava que ele descobrisse sozinho, sem precisar ouvir primeiro da minha boca. Queria que ele dissesse antes de mim. Tinha medo de falar e estragar tudo. Medo de ser precipitada e assustá-lo. 

Então, no momento certo - digo certo porque deu certo -, eu falei sem nem pensar muito. Foi fazendo amor. Só depois que falei, percebi que já tinha falado. E pronto, tava falado. E hoje não tenho dúvidas de nada em relação a este amor que sinto. 
Eu me entreguei de corpo e alma e fui perdendo o medo de amar novamente e de ser amada. Porque antes do "Amor das minhas vidas" o amor pra mim tinha gosto de dor, muita dor.

Agora estou aqui, feliz da vida. Livre, leve e solta!


Ah, depois de ter falado pra ele que o amava, eu escutei a frase que tanto desejei. E, além de ter a certeza do amor dele, fui surpreendida em janeiro deste ano com um pedido de casamento. Eu, que sempre me gabei de ser intuitiva, fui pega de surpresa. Nem de longe desconfiava de que isso aconteceria, e aconteceu. Nem foi o meu primeiro pedido de casamento, muito menos o primeiro casamento, mas com certeza foi o mais lindo e intenso de todos. Senti-me como uma adolescente flutuando pelo Universo.