quinta-feira, 27 de agosto de 2009

UM CAPÍTULO PARA O EVANGELHO

Para quem gosta de Saramago, hoje eu descobri o blog do escritor português, O Caderno de Saramago. Para minha surpresa deparei-me com um capítulo extra do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O melhor de tudo, a narração da história é de Maria Madalena. Para quem é apaixonado por Saramago ou tem curiosidade em conhecer um pouco da sua obra aqui está. Leia o texto aqui no Vivendo e Aprendendo, e depois dê uma passadinha lá no blog do Saramago, vale a pena.


por José Saramago
"De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer."

Para ler este texto no blog do autor, clique aqui.

VESTIDO DE NOIVA


Naquele dia ela acordou cedo, mais que o de costume. Deu um beijo nele e saiu bem de mansinho do quarto para não o acordar. Era um dos dias mais importantes da vida dela. Depois de dois anos de namoro e oito meses morando juntos, finalmente eles iriam se casar. Já estava tudo pronto: festa, convidados, papéis do casamento civil, passagens compradas..., mas ela ainda não estava certa quanto a uma única coisa - o vestido de noiva. Foram meses de procura pelo modelo ideal e de muitas dúvidas. Para ela, aquele vestido era mais que uma roupa. Mas dentro dela alguma coisa dizia que faltava algo, um sei lá o que de não palpável.

Na noite anterior, ele tinha preparado uma surpresa para ela. Trouxe lindas rosas amarelas e falou bem baixinho no ouvido dela o quanto a amava e o quanto o fazia feliz. Ela, como sempre, abriu aquele largo sorriso e apertou-o contra o peito como se quisesse vesti-lo. Tiveram uma linda noite de amor. Suave, doce, intensa e flutuante.

Quando na manhã seguinte saiu do quarto e passou pela sala, esbarrou no vaso de rosas amarelas e arranhou-se nos espinhos da flor. Aquele sangue foi como um clarão na sua mente. Lembrou-se da reação que o toque dele causava em seu corpo. Da sensação do tudo, do muito, num breve esbarrar. E entendeu o que faltava, o que queria. Não era o modelo do vestido, nem a cor, era o impacto desse vestido em seu corpo. Ela queria vestir a alma, não o físico. Queria tê-lo como sua segunda pele naquele dia. Queria entrar nele e sentir as mesmas sensações que ele sentia. Queria sorrir o sorriso dele. Queria cada pedacinho do seu amado sussurrando: "Eu não quero sair daqui. Não quero sair do seu corpo." Então ela descobriu o que queria. Era vestir-se do "Amor das suas vidas" e nunca mais trocar de roupa.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

LOS IMPRESCINDIBLES

Hay hombres que luchan un día y son buenos.
Hay otros que luchan un año y son mejores.
Hay quienes luchan muchos años 
y son muy buenos.
Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. 
Bertolt Brecht
Eu escutei esse lindo poema quando niña na voz de Mercedes Sosa. Na época, eu nem entendia, mas me tocava. E a lembrança é linda... escutar a deusa Sosa ao lado de outra que era a minha mãe. Depois de mais velha descobri de quem era e o que realmente significava. Amei ainda mais. E a lembrança está guardada para sempre. Dedico a todas as mulheres e homem que lutam por toda uma vida... nosotros!


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

CORAGEM

"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta, daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." Guimarães Rosa

O JARDINEIRO E A FLOR


As pessoas dizem que "encontram" o amor, como se o amor fosse um objeto escondido atrás de uma pedra. Mas o amor assume muitas formas, e nunca é o mesmo para cada homem e cada mulher. O que as pessoas encontram, então, é um certo tipo de amor.

O amor como a chuva pode se nutrir do alto, deixando os casais encharcados de alegria. Às vezes, porém, na dura batalha da vida, o amor seca na superfície e é obrigado a se nutrir do chão, sugando com suas raízes para se manter vivo.
Esses dois trechos eu tirei também do livro As cinco pessoas que você encontra no céu, de Mitch Albom, que já terminei de ler. São também dois pedaços do livro que me fizeram parar e pensar, pensar bastante sobre o amor. Eu acho que o amor está dentro da gente, e que antes de tentarmos "encontrar" a personificação desse amor, que seja atrás de uma pedra, temos que nos amar primeiro. Um amor pleno, seguro. Aí sim, nós vamos conseguir amar outra pessoa e nos deixar sermos amados. São vários tipos de amor. Ninguém ama igual, isso é fato. Existe o amor agradecido, profundo, silencioso, platônico, suave, e outros mais. Mas todos eles têm que nos fazer bem, senão não vale a pena, não é mesmo?

O segundo trecho tem tudo a ver também, principalmente pra quem é casado, ou já foi, ou namora há muito tempo. Enfim, no início é tudo lindo, intenso, novo. Mas depois o dia-a-dia rouba um pouco dessa beleza inicial e temos que alimentar esse amor para que o relacionamento continue nos fazendo bem. Eu sempre brinco dizendo que o amor, o relacionamento, é como uma florzinha que precisa ser regada todos os dias, todas as horas, porque senão ela murcha e morre. Eu até apelidei o namorado de uma amiga de jardineiro porque ele cuida desse amor. Mesmo morando longe ele se faz presente com pequenos gestos, e é assim que temos que ser com quem amamos. Mas também ela faz por merecer, além de ser uma flor linda de viver, retribui a altura. Alimenta esse amor com água vitaminada e com um regador gigante, que tem alcance de mais de mil quilômetros. O jardineiro mora no Rio de Janeiro e ela aqui em Brasília.

Todos essas formas de amar e de cultivar esse amor não servem só para os amantes, serve também para regarmos os amigos e a família, os nossos companheiros nessa grande jornada que é a Vida. Como diz o Mitch Albom: "Cada vida afeta a outra, e a outra afeta a seguinte, e o mundo está cheio de histórias, mas todas as histórias são uma só".

sábado, 1 de agosto de 2009

MEDO

Essa palavrinha pequena causa um estrago tão grande na nossa vida!

Escutei de uma amiga esta semana: “Não quero entrar nesse relacionamento porque não sei se vou amá-lo o tanto que ele merece. Não sei se vou amá-lo suficientemente. E se eu não o amar, e ele sofrer?”


Em qualquer relacionamento há riscos. Não só no amor, como em contratos comerciais, no nosso trabalho, no nosso dia-a-dia. Nós nunca temos certeza se realmente vai dar certo. O primeiro passo é querer que dê certo e deixar acontecer.

Nós não temos que nos preocupar com os riscos do outro. Ele é que tem que se preocupar com isso. Somos adultos e temos que saber onde estamos entrando e se queremos entrar. Foi o que disse pra minha amiga. “Se ele está querendo namorar, ele é quem tem que se preocupar com os riscos que irá correr.” 

Se cada um cuidar se si, fizer a sua vida como indivíduo valer a pena, ser feliz vai ser uma questão de tempo. Só assim conseguiremos compartilhar essa felicidade com alguém.

Pense comigo: Quem gosta de ver o amado sofrendo, quebrando a cabeça ou perdendo tempo com coisas que não merecem nem a nossa atenção? Ninguém. Por isso, prepare-se para o amor. Resolva os seus medos e não tenha cautela em arriscar. Certas coisas nesta vida só dependem da gente. Só nós mesmos podemos fazer pela gente. Não devemos projetar a nossa felicidade em outra pessoa. Está aqui dentro, naquela viagem de que já falei. A viagem dentro do nosso Eu.

Por isso, não tenha medo de ser feliz. Não existe hora pra isso. Tem que ser a qualquer hora e sempre. E não duvide quando essa hora chegar. Porque ela vai chegar, e você vai ter que tomar uma decisão. Ser feliz ou continuar nesse mundinho triste e sem graça!

Dê uma chance para o Amor. Tenha cuidado sim, mas não deixe de vivê-lo, não deixe de se arriscar.


Quero deixar aqui, neste post,
uma musiquinha que escutei há algum tempo,
no início do meu relacionamento
com o “Amor das minhas vidas”.
É lindinha e exprime um pouco
o que já escrevi.



PASSOS PELA RUA - MARCELLO MIRA


Enfeitou a casa
Mas não acreditava
Que o amor ainda pudesse chegar
Pela madrugada
Linda ao pé da escada
Esperou sentada pra não se cansar

Passos pela rua, lá vem o amor
Vem cambaleando entra pra um café
Sem carro do ano
Sem anel dourado
Na mão uma rosa
Sapato furado

Passos pela rua, lá vem o amor
Vem sorrindo alto, lá vem o amor
Hoje ela já sabe que o amor é raro
Hoje ela passeia com o amor ao lado

Se liga que lá vem o amor
Abre as portas que o amor chegou
Deixe-se levar enquanto ainda é tempo
Deixe-se levar pra sempre

Passos pela rua, lá vem o amor
Vem sorrindo alto, lá vem o amor
Hoje ela já sabe que o amor é raro
HOJE ELA SE DEITA COM O AMOR AO LADO

AME-SE

Quem disse que pra ser feliz a gente precisa de alguém?
Isso não é verdade, é mito. 
Pra ser feliz a gente precisa da gente mesmo.
Precisa viajar pelo próprio Eu e conhecer cada detalhe íntimo desse Eu.


Vamos, corra! Faça essa viagem e descubra como o Universo conspira para que a gente fique de bem com a vida. Muitas vezes, quando isso acontece, aparece na nossa frente alguém que vai completar essa felicidade. Vai nos ajudar a seguir a caminhada de braços dados com o Amor.